quarta-feira, outubro 05, 2005

Discussão frankfurtiana: Walter Benjamin em "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica"

*Texto e comentário baseado na bibliografia:

BENJAMIM, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In: COHN, Gabriel. Comunicação e indústria cultural. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973. p.205-240.

Todas as inovações que se tornaram fatos, atualmente, devido ao grande avanço da tecnologia garantiram uma completa mudança da antiga concepção de arte, assim como do “belo”. A indústria cultural absorveu todos esses aspectos da arte e, com isso as modificou intensamente, submetendo-as ao poderio da modernidade. A técnica foi e continua a ser, a cada nova geração, transformada, alterando todas as concepções tradicionalistas, até então tidas. Fatores que eram, em períodos anteriores, tidos como relevantes como o poder de criação, o gênio, valor da eternidade e o mistério deixam de ser tão importantes e analisados pela massa. A indústria cultural induz a uma interpretação fascista dos elementos que compõe a arte do período moderno.

A arte sempre foi suscetível a cópias. Ao longo da história, os modos de as reproduzir foi cada vez mais desenvolvido, chegando a tal ponto que, atualmente, elas são reproduzidas em larga escala e sofrem um processo de exibição muito maior para a massa. Desde o passado quando se entalhava imagens na madeira, seguidas de processos mais inovadores como a xilogravura, litografia e, finalmente, a fotografia. Esta última revolucionou todo o contexto de reprodução das artes, pelo fato de ser muito facilmente adquirida em pouco tempo. Do mesmo modo o cinema, que é considerado o grande agente da transformação, foi e é, ao lado da fotografia, tópico de discussão sobre as mudanças que proporcionaram à arte. Antigamente tal assunto era analisado, mas não se enxergava as mudanças que eles traziam. A tradição foi quebrada. As cópias de obras de arte não estão mais inseridas num contexto tradicional de sua criação. A reprodução em larga escala atingi diretamente um ponto muito sensível da criação artística: a autenticidade. A autenticidade engloba todos os conceitos referentes à arte específica como a duração material inerente a ela, assim como o seu poder de testemunho histórico.

A aura de uma produção artística está em decadência. Isso é decorrente, como tratado acima, dos próprios aspectos que modificaram sua concepção com o decorrer dos séculos. Uma obra perde sua aura a partir do instante que ela não possua mais nenhuma relação com sua função ritual, ou seja, quando o seu antigo valor de uso deixa de existir e ser levado em consideração. A arte não repousa mais sobre sua perspectiva ritual, e sim a uma política de vendas.

A principal diferença do cinema e do teatro é que, no último, é o próprio ator que se apresenta ao público, podendo adaptar sua encenação de acordo com a reação da platéia; no cinema não, a encenação é apenas reproduzida da mesma forma centena de vezes, independentemente da reação negativa ou positiva do telespectador. O que importa no cinema – mudo – não é a “encarnação” do ator em outro personagem e sim sua própria performance frente ao aparelho que toma o lugar do público e torna a realidade em apenas uma imagem sem som “que tremula um instante na tela e desaparece em silêncio...” .

Nas representações cinematográficas perde-se também a aura do personagem – que no teatro é inseparável do ator – já que não há o desempenho do papel contínuo e sim uma série de cenas isoladas; à medida que isto ocorre, o ator tem uma “personalidade” construída para o consumo, reduzindo a arte a um valor mercantil e tornando crescente o desejo de pessoas comuns se tornarem “estrelas”.

O número de escritores cresceu disparadamente com a imprensa, o que tornou um enorme grupo de antigos leitores em escritores e a competência literária em mera técnica.

O cinema, porém, mostra-se superior: à pintura no sentido de permitir uma análise maior do conteúdo dos filmes, fornecendo um inventário mais preciso da realidade, e ao teatro em relação a poder isolar “um maior número de elementos constituintes” que favorecem a penetração mútua de arte e ciência; assim, pode proporcionar a representação da vida cotidiana em ângulos diferentes e o conhecimento de novas formas e movimentos. Estes movimentos, entretanto, não permitem que os olhos fixem em algo, perde-se a capacidade de pensar, pois a imaginação é surrupiada pelas imagens. Para Duhamel, com a massificação do cinema e da arte, perdeu-se a característica principal de recolhimento, de reflexão sobre os mesmos e ganhou o sentido de diversão, de passatempo. Porém, é possível juntar diversão com reflexão; o cinema não pode ser algo apenas para contemplação, tem que ser algo que se torne um hábito, que possamos usufruir e entender e não apenas observa-lo sem interferência alguma.


COMENTÁRIO:

Através do texto “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” é possível estabelecer alguns parâmetros a respeito da concepção de arte que se tem atualmente, que é diferente da que era tida antigamente.

As obras artísticas passaram a ser muito mais difundidas e divulgadas pelo mundo do que era há alguns séculos atrás. Antigamente levava-se em consideração todo o processo de criação, desde a questão da inspiração, até a finalização da obra, que era, então, apreciada por classes geralmente entendidas sobre os assuntos de âmbitos artísticos. Entretanto, com o advento da modernidade e com a tecnologia que ela no proporcionou, aquela sobras que eram, até então, únicas passaram então a serem copiadas, e a população mundial teve um acesso mais direto a tais obras. Do mesmo modo, surgiram novos tipos de produção de arte que tinham, em seu contexto a indução à reprodutibilidade, como é o caso da fotografia, da qual é possível revelar quantas vezes se desejar as fotografias que foram tiradas. Devido a esse novo parâmetro, inúmeras discussões foram e são realizadas em torno de tal transformação que foi adquirida pelo contexto artístico mundial.

No texto, o cinema é comparado com outras demonstrações de arte para que se possa fazer uma análise do mesmo. Foi comparado ao teatro, no sentido da performance de ator e da aura do personagem e à pintura, como forma de retratar à realidade. Chega-se a conclusão, porém, que o cinema é superior em alguns pontos, em relação a essas formas de arte, e inferior em outros.

A arte tem sido confundida com mercadoria não é de hoje. Com o cinema, criou-se grande polêmica entre os críticos de arte. As produções cinematográficas têm suas qualidades e suas falhas, como toda obra de arte. A questão é: será que o cinema, depois de popularizado e massificado, pode ser encarado como arte?

Há dois modos de se fazer cinema: um é para vender, cheio de seus clichês e características que irão agradar o público; o outro é uma forma de arte, não apenas uma diversão mas também uma forma de mostrar a realidade de tal forma com que o telespectador tenha que usar o raciocínio e não apenas se deixe levar pelas imagens sem conteúdo e, infelizmente, esse é o tipo de cinema que menos faz sucesso.